Affichage des articles dont le libellé est Arnaldo Jabor. Afficher tous les articles
Affichage des articles dont le libellé est Arnaldo Jabor. Afficher tous les articles

26.3.07

Le carnaval est une fête féminine, dixit Arnaldo Jabor


O carnaval é uma festa feminina

Hoje é carnaval. E, como ando numa onda nostálgica, sou arremessado para 1950, ao colo de meu pai, na Avenida Rio Branco, vendo passar as “sociedades” carnavalescas.
Elas desfilavam justamente hoje, na terça-feira gorda. Eram carros alegóricos cheios de rodas moventes, de estátuas de papel e massa, grandes e toscas carrancas, estrelas, sóis, luas cobertos de mulheres provocantes. As “sociedades” competiam com nomes góticos como Pierrôs da Caverna ou Tenentes do Diabo. Todo mundo cantava: “Chiquita Bacana lá da Martinica, se veste com uma casca de banana nanica!” De repente, eu vi um carro imenso que era um despotismo de cachos de banana, com uma mulher lindíssima, morena, completamente nua na proa. Os pais de família, as mães de família (todo mundo era de família) sussurravam: “Olha a Elvira Pagã! Olha a Elvira Pagã!”.
Já contei essa história aqui, mas repito essa visão do carnaval.
Elvira Pagã era apenas uma vedete mas, naquele ano remoto, ela queria “provar” alguma coisa. Algumas atrizes como ela (Luz del Fuego e outras) transcendiam o palco e viravam o símbolo vivo de desejos reprimidos no coração das famílias. Eu olhava em volta e via nas senhoras distintas a inveja infinita e escandalizada e no olhar de meu pai um brilho faminto que eu não conhecia, voltado para a Pagã (que nome anticristão e nu!). Elvira foi a precursora corajosa de todas as mulheres nuas, como Luz e Eros Volúsia.
Hoje, as mulheres do carnaval travam uma competição frenética de bundas e seios e eu me pergunto: O que querem elas provar? Querem nos levar para o fundo do mar como sereias, querem destruir os lares, querem mostrar que o sexo sem limite resolverá os problemas do Brasil?
Talvez. No carnaval vemos que nosso inconsciente cultural está à flor da carne. Quanto mais civilizado o país, mais fundo é o recalque. Já imaginaram a cascata de bundas na Suíça? Mas é melhor entendermos o Brasil através do carnaval do que ver a folia louca como um desvio da razão. Temos uma outra forma de seriedade, mais alta que a gravidade do mundo anglo-saxão. Em nenhum lugar do mundo vemos isso. Onde existem essas pirâmides de corpos se atirando uns contra os outros com sexo e música? No entanto, olhando bem, vemos que o nosso carnaval não aspira a nenhuma desordem, ao caos, como pode parecer a um turista ou um moralista. Talvez seja uma doença “salvadora” de que o mundo precisa. Trata-se de uma utopia sexual brasileira, como se o país aspirasse a uma trepada pós-histórica definitiva, uma revelação, um messianismo sexy. Nossa sacanagem é do fundo das matas, sem culpa, indígena e africana, diferente das surubas calvinistas de Nova York, onde inventaram o sexo torturado nas boates doentias e acabaram no cultivo da aids. Comparando com a alegria do mundo rico, o nosso carnaval é feminino, enquanto o rock é de homem. O rock é guerra; o carnaval é luxo e volúpia. No carnaval os homens querem virar mulheres. Todos querem ser tudo: os homens querem ter seios de fecundidade e as mulheres querem ser sedutoras máquinas de excitar pênis dançantes. O carnaval é um travestimento, daí o sucesso dos gays e drag queens, carnavalescos o ano todo. O mundo macho tem muito a aprender com as mulheres no carnaval, as filhas das mucamas mulatas, das escravas lindas, misturadas com o glamour das estrelas do cinema e TV. O nosso carnaval quer transformar a cultura em natureza. O carnaval é anti-Bush, anti-Iraque, antibode republicano. Pode ser o antídoto devasso contra o pragmatismo fundamentalista. África e índios nos salvaram, como deram vida aos USA. Que seria da América sem o jazz? Um país branco-azedo, cheio de Wasps tristes.
No carnaval existe uma coisa mais além da “imoralidade”; há uma santidade nesta explosão de carne que não se explica. Mas, mesmo assim, dói-me ver a virtualização do carnaval de hoje, no Rio. O “estar” deu lugar ao “ver”. O carnaval oficial virou uma festa para voyeurs, turistas inclusive brasileiros na TV e arquibancadas, turistas de si mesmos. Hoje o carnaval chega pronto. Antes, era uma revelação; hoje ele esconde qualquer coisa. Falta um minimalismo poético nos desfiles de luxo, perdeu-se a delicadeza dos detalhes. Falta o mal jeito, faltam a ingenuidade, o romantismo, faltam Braguinha, Lamartine. Por isso, acho que a grande tradição do carnaval está mais presente nos blocos dos foliões anônimos. Nas ruas, estão os blocos dos anjos de cara suja, os blocos das escrotas, dos vagabundos, dos bêbados ornamentais, da crioulada pobre. Podemos ver nas ruas a preciosa origem do carnaval profundo. Lá estão os famintos de amor, os malucos, os excluídos da festa oficial. Só os sujos são santos. Ali vemos as fantasias de surda revolta contra o trabalho desumano, o exorcismo da miséria, o prazer de escrachar a beleza óbvia dos ricos. Pela crítica a essa beleza limpa, vemos uma poesia grotesca que atravessa os séculos desde Brueghel, Bosch, Rabelais e Goya, até desaguar no barroco brasileiro. Ali, nas ruas sujas, estão as três raças brasileiras entrelaçadas na esperança de um casamento grupal doído: negros, brancos e índios dando à luz um grande bebê mestiço e gargalhante, ensinando que a vida é uma arte e a lógica careta é a morte.


Arnaldo Jabor
(Publicado originalmente no Segundo Caderno do Jornal O Globo em 08 de fevereiro de 2005)

Le carnaval est notre raison folle, dixit Arnaldo Jabor


Arnaldo Jabor - O carnaval é nossa razão maluca
O Globo
20/2/2007

Há um desejo de ordem nas multidões dançantes

Todo ano meu artigo cai na terça-feira gorda. É claro que, todo ano, acabo falando do carnaval. Falar de quê? Das balas perdidas? Do Chinaglia, o secretario particular do Dirceu? Falar dos crimes hediondos, dos assuntos regressivos, de todas as vitórias do atraso que temos visto neste pobre país em marcha a ré? O carnaval ao menos nos dá a ilusão de uma esperança; parece até que somos um país que vai bem. Por isso, todo ano me repito, se bem que o carnaval não se repete. Há ínfimas mudanças anuais que o mercado, a crise política, os meios de comunicação vão provocando. Até o rato do Hugo Chávez já está financiando escola de samba, esse Mussolinizinho tropical tão amado por nossos intelectuais.

Muito bem, bodes à parte, vemos que, apesar de tudo, o carnaval guarda uma essência (sim, usarei a palavra renegada), uma "essência" do que temos sido pelos anos afora.

O carnaval é nossa loucura grandiosa. Como pode o mundo achar o carnaval uma exótica suruba, este mundo irracional de bombas contra bombas? É melhor entender o Brasil através do carnaval, do que ver o carnaval como um desvio da razão. O carnaval nos vê. O carnaval mostra que o Brasil tem outra forma de "seriedade", mais alta que a gravidade do mundo anglo-saxão. O carnaval mostra a matéria de que somos feitos, por baixo dessa mímica de "Ocidente" que o Brasil tenta, há cinco séculos. Há uma certa "orientalidade" africana em nossa vida. A África e os índios nos salvaram, assim como salvaram os USA. Que seria da América sem o jazz? Seria um país branco-azedo, cheio de wasps tristes. Nosso carnaval mostra que o inconsciente brasileiro está à flor da carne. Quanto mais civilizado o país, mais fundo o recalque. Talvez o carnaval seja uma doença salvadora, e não pode ser confundido com esculhambação ou anarquia. Desordeira é nossa política suja, desordem é o nojento egoísmo das classes dirigentes, ultimamente apavoradas com a violência que poderiam ter evitado, 30 anos atrás.

Pelo contrário, há um desejo de ordem no carnaval, como a busca de uma civilização "não civilizada", de um retorno a uma animalidade perdida e, no entanto, pulsante.


Há no Brasil o desejo de uma difusa "indianização" como futuro. A sacanagem das matas profundas é diferente das orgias calvinistas de Nova York, que inventaram o sexo torturado nas boates doentias e acabaram na Aids. Todas as metáforas do carnaval são ligadas à idéia de abundância, de fecundidade, tudo busca um grande prazer para nos salvar, um dia, de um futuro desértico de racionalidade paranóica. Já imaginaram uma cascata de bundas na Suíça? Nosso "fim da História" é sonhado como uma grande suruba delirante. O nosso carnaval quer transformar a cultura em natureza.

Quanto mais civilizado o país, mais fundo é o recalque. O carnaval é antibush, antiiraque, antibode republicano. Resiste, mas o ataque do lucro e do mercado continua. O carnaval virou um tema para as empresas, os pacotes turísticos; o carnaval virou um produto.

Parece uma calamidade pública, uma euforia desesperada com os populares se esmagando nas ruas ou então um desfile chique de burgueses e burguesas se despindo para aparecer na TV, nas escolas de samba. O carnaval deixou de ser dos "foliões", para ser um espetáculo para os outros; o carnaval deixou de ser vivido para ser olhado.

Por isso, tenho saudades da inocência perdida do passado. Lembro das marchinhas toscas que tocavam nos rádios por volta de dezembro, lembro das bobas fantasias - legionários, piratas, caubóis - influenciadas pelos filmes americanos, lembro da Casa Turuna na cidade, com máscaras de morcegos, pretos velhos, fantasmas de língua de fora, lembro das escolas de samba na Avenida Presidente Vargas: um bando de índios de bigode e penas de espanador, pintados de preto, rodeados pelas gordas baianas cobertas de balangandãs.

Dirão meus inimigos: esse idiota está louvando o atraso. Estou, sim. Naquele atraso havia uma preciosa alma brasileira, um ritmo humano que se via nos bondes, nos botecos, nos caixotes dos bicheiros, nas favelas sem droga, sem crimes hediondos. Para descobrir um carnaval mais puro, há que olhar os detritos que sobraram dos anos 40 e 50, assim como olhamos velhas fachadas entre os prédios "modernosos". Quando passam as baterias das escolas, quando uns garotos sambam no pé, quando passam vagabundos vestidos de mulher, de "nega maluca", quando vemos os clóvis de Santa Cruz, ainda vislumbramos traços de beleza autêntica. Dirão que sou um estraga-prazeres, mas tenho vontade de chorar quando lembro de um Brasil que estava seguindo seu rumo de toscos sambinhas e que, de repente, se viu jogado num progresso vertiginoso que não era o seu.

A explicação sociológica dos pobres querendo ser reis não esgota o assunto, diante do espetáculo da alegria desesperada e meio catastrófica das multidões que pulam na Bahia, no Recife. Há neles quase que o desejo de morrerem esmagados, num fervente formigueiro onde possam se sentir num grande "Islã dançante" e pagão. Há ali uma espécie de comício contra as humilhações e dores do ano. Nos blocos dos anjos de cara suja, dos travestis escrotos, dos vagabundos, há uma autocaricatura que denuncia a micharia da vida que vivem; eles se fantasiam de excluídos para justamente esconderem que são realmente. Eles esfregam em nossas caras que são as provas de um crime que não cometeram. Amanhã recomeça o carnaval do Mal.

19.4.06

Pendant le Carnaval seuls les pouilleux sont saints, dixit Arnaldo Jabor

Voici l'intégralité d'un article paru dans le journal Globo d'Arnaldo Jabor au lendemain du Carnaval brésilien. Le titre est "pendant le carnaval, seuls les pouilleux sont saints". J'en conclus que chacune de mes îles se doit d'être pouilleuse pendant les 3 jours et plus que dure son "triduum momesque" si elle veut atteindre la sainteté.

Arnaldo Jabor - No carnaval, só os sujos são santos


O Globo
28/2/2006

Todo ano é o mesmo problema: minha coluna sai na terça-feira de carnaval e o único assunto, claro, é o próprio. E sou obrigado a me repetir, pois não tem sentido falar do Lula no carnaval, apesar de ele estar fazendo uma folia nos 365 dias do ano, fantasiado de messias populista, usando chapéu de cangaceiro, de corintiano, de Baco na festa da uva, dançando xaxado, usando agora um blusão “goiabeiro” com um escudo da República, com faixa e tudo. Não dá para falar desse homem, porque é falta de tato, escrever no carnaval para um leitor de ressaca, vestido ainda de bailarina, barbado e sujo, tomando Engov com sal de fruta. Nem dá para falar dos outros ventos que rolam no noticiário, como a gripe aviária, esta vingança das galinhas, nem do espantoso estrago que o Bush fez na humanidade, destruindo em quatro anos o nome da América, unindo o Oriente contra nós e criando exércitos de homens-bomba que agora vão iniciar a guerra civil no Iraque. Este ano eu tentarei não enlouquecer com a insânia do mundo, porque andei muito messiânico. Se bobear, acabo fazendo discursos na rua, como um profeta de camisola, com multidões rindo e me jogando cascas de tangerina. Por isso, só me resta ficar no carnaval mesmo.

Antigamente, os jornais chamavam o carnaval de “tríduo momesco”. Não é genial? “Tríduo momesco”, três dias de folia, delírios de Momo. E o tríduo momesco começava bem antes do carnaval. Começava como uma frente quente no ar, com sons de marchinhas que surgiam no rádio, com os flamboyants sangrando no verão do Rio, com as cigarras cantando (onde estão as cigarras do Rio nos fins de tarde?) naqueles verões que prometiam amores infinitos. O carnaval começava como o prenúncio de uma tempestade feliz, o carnaval para mim não era nem orgiástico nem sexy; era a esperança de realizar alguma façanha, alguma aventura que nunca ousara, que ia mudar a minha vida de tímido e bobo, algo de milagroso, uma paixão realizada, um rosto infinitamente belo que eu beijaria entre confetes dourados e serpentinas sensuais, um extraordinário feito sexual na madrugada ou até mesmo um dramático desencontro, como no famoso conto de João do Rio, “O bebê de tarlatana rosa”.

Para mim, o carnaval sempre teve um ar etéreo, impalpável, sempre foi uma ventania de sons, uma debandada de perfumes, uma alegria febril que só os outros tinham e que eu nunca entendia direito, deslocado, pensando: “Por que estão tão felizes?”.

Eu gostava mesmo era de sair nas ruas do subúrbio para ver os blocos de sujos, como chamavam. Havia perto de casa, no Rocha, um sujeito que saía com uma casaca velha, numa bicicleta cambaia, triste, em silêncio, com um cartaz: “Bloco do eu sozinho” — tinha algo de metafísico. Tinha o “Amélia”, um mendigo bicha que se vestia de mulher sobre seus trapos e cantava “Chiquita Bacana”. Vendo os clóvis de Santa Cruz, os malucos de saia, bigode e tamancos, eu ficava feliz (oh... infância neurótica...); o resto, as odaliscas jovens, as tirolesas e piratas me intimidavam.

Muitos anos mais tarde, entendi a razão profunda dos blocos de sujos quando vi um genial filme de Jean Rouch, o antropólogo-cineasta francês, um filme chamado “Les maîtres fous”. Nele, os desgraçados da África do Sul, os “underdogs” negros do apartheid iam de noite para a floresta fazer um ritual meio vodu de exorcismo dos dominadores brancos. Uma camisola suja vestia um negro enorme, representando a “mulher do governador”, os passos de ganso dos guardas do palácio viravam uma dança caricatural pelos negros esmagados de solidão, um grande ovo de avestruz era espatifado na cabeça de um outro negrão, como o chapéu coroado de amarelo dos generais brancos. Esta representação escrachada da vida social, esta crítica travestida nos oprimidos, esta mímica de si mesmos esculhambados em seu dia-a-dia, isso fica muito além do narcisismo que tomou conta de tudo no carnaval de hoje.

Esta gente não se espreme no gueto programado dos sambódromos.

Nas ruas remotas, está a origem preciosa do carnaval profundo, a festa maluca que o povo dá a si mesmo. Lá estão os desesperados, os famintos de comida e de amor, lá estão os excluídos da festa oficial. Nas ruas, estão os anjos de cara suja, os blocos das escrotas, os blocos dos vagabundos, dos bêbedos ornamentais, da crioulada dura. Esses molambos e pirados jogam sobre nós a beleza da lama, detêm o enredo de séculos de exclusão; na verdade, o samba-enredo mais antigo da humanidade: “Tragédia milenar dos desgraçados”. Ali está a muda revolta não-entendida do trabalho desumano, da escravidão dos baixíssimos salários, o prazer de escrachar-se e escrachar a beleza óbvia da elegância e do brilho. Nesta inversão da beleza limpa, há a invasão de uma poesia “grotesca”, que atravessa os seculos, desde Brueghel, Bosch, Rabelais até Goya e Ensor, e acaba nas caretas coloridas das máscaras da Casa Turuna. Nas ruas sujas, estão as raças brasileiras ensopadas, num casamento grupal doído, dando à luz um bebê mestiço gargalhante, que nos lembra que, sob o brilho das massas de mercado, sobra uma santidade essencial misteriosa.